Os animais também sentem luto

gato e cão deitados lado a lado

Os animais também sentem luto

O silêncio de uma casa onde antes se ouvia o som das patinhas a correr é um dos silêncios mais difíceis de suportar. Muitos tutores descrevem esse vazio como algo quase físico: o olhar perdido do cão que procura o companheiro, o gato que já não dorme na mesma almofada, o pássaro que deixa de cantar…

Mas será isto apenas uma projeção humana? Ou os animais também sofrem verdadeiramente quando perdem alguém que amam?


A ciência e a experiência clínica mostram-nos que sim, os animais também sentem luto.


Compreender este processo é essencial para sabermos como os apoiar nesses momentos. No Hospital Veterinário de Coimbra, onde cada vida é acompanhada com empatia e dedicação, este tema é profundamente sentido: porque cuidar vai sempre além do físico.

Quando a ausência se torna visível

O luto animal é, antes de tudo, um comportamento observável. Não há palavras, mas há sinais: recusa de alimento, apatia, ansiedade, isolamento, mudanças de rotina.


Em 2015, investigadores da University of Veterinary Medicine Vienna analisaram centenas de relatos de tutores de cães que perderam um companheiro canino. Mais de 80% dos casos apresentavam mudanças de apetite, padrões de sono e vocalizações. Os cães, habituados a uma rotina social partilhada, pareciam inclusive desorientados, como se lhes faltasse uma parte do mundo.

Nos gatos, o processo pode ser mais silencioso, mas igualmente profundo. Muitos passam mais tempo escondidos, dormem menos e procuram insistentemente o espaço ou o cheiro do animal ausente.

O luto como expressão do vínculo

Durante muito tempo, acreditou-se que o luto era um comportamento exclusivamente humano. Hoje, sabemos que isto é falso.


Estudos com elefantes, golfinhos, primatas e aves demonstram respostas emocionais complexas perante a morte.


Os elefantes, por exemplo, são conhecidos pelos seus “rituais de despedida”. Várias observações já divulgadas mostram grupos que regressam repetidamente ao local onde um membro morreu, tocando com as trombas nos ossos e permanecendo em silêncio por longos minutos. É um momento de aparente respeito e ligação, como num luto coletivo.


Nos golfinhos, foram documentadas fêmeas a carregar as crias mortas durante dias, recusando-se a deixá-las afundar.


A primatologista Jane Goodall relatou também casos semelhantes entre chimpanzés: mães que permaneciam junto das crias falecidas, companheiros que se isolavam após a perda de membros do grupo. Estes comportamentos não são automáticos. São respostas emocionais e sociais à dor da ausência.


E o mesmo acontece com os nossos companheiros de casa. Quando um cão deixa de brincar, quando um gato vagueia em busca de um cheiro familiar, não é apenas rotina. É memória. É afeto.

Cães e gatos: quando a perda se sente em casa

Os cães, seres de matilha por natureza, vivem em função dos laços. O seu instinto social é o que os torna tão ligados às pessoas e a outros animais. Quando um desses laços se quebra, há um desequilíbrio.


Um cão em luto pode recusar passeios, permanecer junto de objetos do companheiro perdido, chorar baixinho ou, pelo contrário, ficar mais dependente do tutor humano.


Os gatos, por outro lado, expressam o luto de forma mais subtil. Podem perder o apetite, dormir menos, tornar-se mais carentes ou, em alguns casos, distantes.
No Hospital Veterinário de Coimbra, é comum recebermos tutores preocupados com estas mudanças. A nossa experiência mostra que o mais importante é respeitar o tempo do animal e não forçar substituições. Cada vínculo é único e não se repete.

O luto nas aves e outros animais

Também nas aves se podem identificar sinais de perda. Os papagaios, altamente sociais, tendem a vocalizar mais ou a recusar interação após a morte de um parceiro. Entre corvos, alguns estudos descrevem “reuniões” em torno dos corpos de indivíduos mortos, durante as quais as aves observam e vocalizam intensamente. Estes comportamentos podem funcionar como um alerta ao grupo, mas também como um momento de aprendizagem, coesão e uma forma de processar o desaparecimento.


Nos mamíferos marinhos e primatas, a perda desencadeia gestos de empatia que ultrapassam o instinto. Os golfinhos que nadam devagar junto a um corpo, os chimpanzés que limpam e tocam suavemente o rosto de um companheiro falecido… Tudo isto sugere que o luto, no reino animal, é mais comum e mais profundo do que imaginávamos.

Como os tutores podem ajudar durante o luto

Compreender o luto animal é também aprender a acompanhar.
A primeira regra é não ignorar as mudanças. Se o animal deixa de comer, dorme em excesso, vocaliza mais ou parece perdido, está a pedir apoio.


Algumas recomendações práticas para essa altura, são:

  • Mantenha a rotina. Os horários de alimentação, passeio e descanso trazem estabilidade emocional.
  • Não force novas ligações. Evite apresentar de imediato outro animal. Dê tempo ao luto.
  • Proporcione estímulos positivos. Jogos leves, carícias, contacto com o exterior.
  • Demonstre calma. Os animais percebem o nosso estado emocional. Mostrar serenidade ajuda-os a recuperar confiança.

E acima de tudo: não subestime a dor. O luto animal pode durar dias ou meses. Se os sinais se prolongarem, o apoio veterinário é fundamental. Em alguns casos, pode ser necessário recorrer a terapias comportamentais.

Quando o vínculo vai além da vida

Há histórias que ficam connosco. Um cão que dorme ao lado da cama do tutor falecido. Um gato que regressa todos os dias à porta onde costumava ser recebido. Um papagaio que repete o nome de quem já partiu.
Esses momentos lembram-nos que o amor animal não é apenas instinto. É laço, memória e presença.


A ciência ainda tenta compreender todos os mecanismos por trás do luto animal. Mas quem convive com eles todos os dias sabe: há emoções que não precisam de tradução ou de estudos científicos.

O papel do Hospital Veterinário de Coimbra

No Hospital Veterinário de Coimbra, sabemos que cuidar de um animal é cuidar de um ser sensível: capaz de sentir alegria, medo e também saudade.

É por isso que, em cada atendimento, procuramos compreender não só o que o corpo mostra, mas também o que o comportamento revela.


Quando um tutor enfrenta a perda de um animal, ou quando um animal sofre com a ausência de outro, o acompanhamento emocional torna-se parte do tratamento. Escutar, orientar, ajudar a perceber o que é normal e o que precisa de atenção. São gestos tão importantes quanto qualquer exame clínico.

O amor que permanece

O luto é, no fundo, uma forma de amor que se recusa a desaparecer.
Os animais sentem-no, cada um à sua maneira. E nós, humanos, temos o privilégio e a responsabilidade de os compreender nesse silêncio que tanto fala.
No Hospital Veterinário de Coimbra, aprendemos todos os dias que o amor dos (e pelos) animais nunca termina, transforma-se.